Salvador recebe o encontro global que está redefinindo o futuro do ativismo e a Holis Viva esteve lá

Salvador recebe o encontro global que está redefinindo o futuro do ativismo e a Holis Viva esteve lá

Um relato da 2ª Conferência Global de Artivismo em Salvador

Talvez a melhor forma de explicar o que vivi em Salvador seja começar dizendo o que não era aquele encontro.

Não era um festival de discursos inflamados.
Não era uma feira de slogans.
Não era um lugar para levantar bandeiras.

Era outra coisa.
Era um lugar para ser bandeira.

De 3 a 5 de novembro de 2025, Salvador recebeu a 2ª Conferência Global de Artivismo, um encontro que reuniu mais de 800 artistas, ativistas e líderes culturais de mais de 60 países, às vésperas da COP30. No papel, parece um grande evento internacional; na pele, parecia um encontro de almas que, de algum jeito, já se conheciam.

Logo no primeiro dia, encontrei um amigo que ajudou a idealizar tudo. Ele me olhou com calma, aquele tipo de calma de quem atravessou muitos “quases” até o “agora”, e disse algo que ficou comigo o resto do tempo:

“O mais importante não é só planejar.
É quando aquilo que você desenhou começa a acontecer em movimento.”

Ali eu entendi que eu não estava indo “ver” um evento.
Eu estava entrando num organismo vivo.


Salvador, corpo inteiro

Salvador tem um jeito próprio de receber: ela não abre só as portas, abre o peito. A cidade foi escolhida de propósito: um dos centros mais fortes da cultura afro-diaspórica no mundo, lugar em que a resistência virou estética, som, comida, fé, dança, política e, sobretudo, cotidiano.

No Pelourinho, participei de um workshop conduzido por facilitadora da Nigéria. Não era aula de dança. Era outra coisa.

O corpo era tratado como memória, não como ferramenta.
Cada passo parecia puxar um fio antigo: de cura, de cuidado, de comunidade.
Ali, a terapia vinha em forma de ritmo, roda, suor, olhar.

E eu percebi, mais com o peito do que com a cabeça:

– Antes de chamarmos de “terapia”, já existia o corpo.
– Antes de chamarmos de “ativismo”, já existia o cuidado.
– Antes de falarmos em “política”, já existia a necessidade de estar junto.

Naquele chão de pedra, dançando entre sotaques, idiomas e histórias, autoconhecimento deixou de ser algo que eu faço sozinho num caderno. Virou algo que eu vivo com os outros, ali, em tempo real.


Um ativismo que não cansa

A palavra “ativismo” costuma vir carregada: luta, exaustão, urgência.
Em Salvador, conheci outra versão.

Ao longo dos três dias, o que vi foram artistas, educadores, líderes comunitários, gente da periferia, gente de povos tradicionais, acadêmicos, comunicadores, até terapeutas – todos tentando responder a uma mesma pergunta, cada um à sua maneira:

“Como a arte e a cultura podem ajudar a mudar o rumo das coisas?”

A Global Artivism, rede que organiza a conferência, parte da ideia de que artistas não são coadjuvantes, mas arquitetos centrais da mudança social. Não é pouco. E, ainda assim, o clima não era de peso. Pelo contrário.

O ativismo que encontrei ali:

  • não gritava, escutava
  • não separava, aproximava
  • não endurecia, amolecia o que estava rígido por dentro

Não se tratava de colecionar causas, mas de se perguntar honestamente:
“Quem eu sou quando o mundo me convoca?”

O verdadeiro movimento começa quando voltamos para dentro, não para fugir do mundo, mas para voltar a ele mais inteiros.


O almoço que explicou tudo

Em um dos intervalos, sentei para almoçar com um dos organizadores. Nada de grande fala ensaiada, slides ou conceitos. Só um prato saboroso  e muitos anos de sonho resumidos em poucas frases.

Ele contou dos bastidores, dos projetos brilhantes inovadores, medos, incertezas, oportunidades. No fim, disse:

“Ver isso aqui agora…
é ver um sonho respirando.”

Não era sobre “dar certo” no sentido empresarial.
Era sobre ver uma ideia que, por muito tempo, existiu só na mente e nos papéis, agora caminhando sozinha pelas pernas de mais de 800 pessoas, espalhadas pelo mundo.

Foi aí que caiu a ficha:
ativismo, no fundo, é isso.
É quando aquilo em que você acredita começa a agir através de você, depois, através de muita gente mais.


Autoconhecimento em escala humana

No meio de tantos países, números e temas, a pergunta que ficou comigo foi bem simples:

“Que tipo de pessoa eu estou me tornando no meio de tudo isso?”

Não “que carreira”,
não “que projeto”,
não “que marca”.

Que pessoa.

Porque dá para falar de justiça climática sem olhar para os nossos próprios excessos.
Dá para falar de comunidade sem cuidar das relações mais próximas.
Dá para amar a palavra “cura” e fugir das próprias dores.

Ali, no convívio com tantos ativistas, percebi que autoconhecimento não é luxo espiritual: é ferramenta prática para não reproduzir, nos nossos movimentos, as mesmas violências que queremos transformar.

É quando faço pausa, quando observo minha mente criando histórias, quando escuto o outro de verdade, que algo começa a se reorganizar. Sem espetáculo. Só presença.


A Holis Viva no meio disso tudo?

Voltar para a Holis Viva depois de Salvador foi como voltar para casa depois de uma viagem em que o mapa ganhou cores novas.

Nosso ecossistema sempre foi sobre:

  • criar espaços de escuta
  • oferecer ferramentas de autocuidado e consciência
  • promover encontros que lembrem as pessoas de quem elas são
  • tratar bem-estar como algo coletivo, não apenas individual

Ver o Global Artivism Convening de perto só reforçou que estamos no mesmo campo: o de quem acredita que transformação profunda começa na experiência, não no discurso.

Não queremos ser mais uma voz gritando “mude o mundo”.
Queremos ser lugar onde você possa, primeiro, se encontrar para depois, naturalmente, começar a se mover de outro jeito no mundo.

Se tem algo que Salvador me deixou é essa imagem:
não éramos pessoas levantando bandeiras.
Éramos pessoas descobrindo, cada uma à sua forma,
como virar a própria bandeira.

Isso, para mim, é o ponto em que ativismo e autoconhecimento se encontram.

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